
Aline Silva sabe bem que o esporte pode mudar destinos. Atleta olímpica em duas edições e um dos principais nomes da história do wrestling brasileiro, ela construiu uma trajetória marcada por conquistas inéditas, superação e protagonismo. Mas foi fora do tapete, ainda durante a carreira, que começou a desenhar um novo caminho com a fundação de um movimento que hoje impacta centenas de meninas de diferentes regiões do Brasil.
A decisão de pensar no futuro antes do fim da carreira não veio por acaso. Ao longo dos anos na excelência esportiva, Aline entendeu que o ciclo do atleta é intenso, mas limitado. Mesmo com resultados expressivos e reconhecimento internacional, ela sabia que o esporte, sozinho, não garantiria estabilidade após a aposentadoria.
“A carreira de atleta é finita. Eu sempre tive muito medo de voltar para um cenário de escassez, então sabia que precisava me preparar enquanto ainda competia”, afirma Aline Silva.
Essa consciência tem raízes profundas na própria história. Criada por uma mãe solo, mulher negra que sustentava a casa com muito esforço, Aline cresceu em um contexto de vulnerabilidade. Passava grande parte do tempo na rua até que, aos 11 anos, viveu um episódio que mudaria sua trajetória: um coma alcoólico.
A partir dali uma mudança decisiva aconteceu. Ao trocar de escola, teve acesso a atividades extracurriculares e encontrou no esporte um novo caminho. O que começou como uma alternativa se transformou em propósito de vida.
“O esporte foi o agente que transformou tudo. Ele não só mudou o meu comportamento, como ampliou o meu mundo. Eu pude estudar, viajar, aprender inglês. Tive acesso a oportunidades que antes não existiam para mim”, relembra.
Planejamento que começou muito antes do fim
A experiência de instabilidade e a consciência sobre a fragilidade da carreira esportiva fizeram com que Aline adotasse uma postura incomum no alto rendimento. Ela começou a se preparar para o depois enquanto ainda vivia o auge como atleta.
Para ela, o maior erro na trajetória de muitos esportistas é deixar essa decisão para o fim. “A maior falha quando a gente fala de transição de carreira é pensar: ‘depois eu vejo o que faço’. Quando chega esse momento, muitas vezes já é tarde. Existe uma curva de aprendizado, é preciso construir relações, entender outros caminhos”, explica.
Esse movimento começou cedo. Ainda jovem, ao ficar de fora dos Jogos Pan-Americanos de 2007, ela enfrentou um período de frustração que a fez repensar sua trajetória. A experiência trouxe uma percepção dura de que a permanência no esporte não era garantida e seria preciso construir alternativas. “Ali eu comecei a entender que só o esporte não era suficiente. Um dia você está na seleção, no outro pode não estar. E aí, o que você faz?”, questiona.
A partir dessa inquietação, passou a investir de forma consistente em formação. Fez cursos de empreendedorismo, buscou qualificação acadêmica com duas novas graduações e desenvolveu o inglês de forma autodidata, aproveitando o tempo entre treinos e competições.
O domínio do idioma abriu uma oportunidade decisiva que foi a participação no Global Sports Mentoring Program (GSMP), um programa internacional que reúne mulheres do esporte de diferentes países para desenvolver projetos de impacto social. Durante dois meses nos Estados Unidos, Aline trabalhou ao lado de mentoras e lideranças globais na construção de um plano de ação.
MEMPODERA: Um projeto que nasce da vivência
Em 2018, Aline colocou em prática o que havia desenhado durante o intercâmbio nos Estados Unidos e fundou a Mempodera, ao lado de parceiras que também acreditavam no potencial do esporte como ferramenta de transformação social. A iniciativa nasceu com uma proposta simples e potente de garantir que outras meninas tivessem acesso às oportunidades que mudaram sua vida.
“Eu sempre acreditei que as pessoas só precisam de uma oportunidade para se tornarem a melhor versão delas. O projeto nasce exatamente disso, de devolver ao mundo o que eu recebi”, afirma.
Desde o início, a atuação foi voltada para escolas públicas, com foco em meninas em situação de vulnerabilidade. O modelo combina aulas de wrestling, ensino de inglês e um currículo voltado ao desenvolvimento pessoal, com temas como liderança, autoestima e projeto de vida.
Hoje, o Mempodera atende cerca de 350 meninas, entre 6 e 17 anos, em cidades de São Paulo e do Maranhão, como Cubatão, Itariri, Pedro de Toledo e São Luís. A expectativa é de expansão para novos territórios.
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Política pública como base da transformação

A consolidação do projeto só foi possível com o apoio de políticas públicas. Atualmente, mais de 90% da estrutura do Mempodera é financiada por meio da Lei de Incentivo ao Esporte, que permite a destinação de recursos para iniciativas esportivas com impacto social.
Para Aline, esse apoio foi determinante para transformar uma ideia em ação estruturada. “A Lei de Incentivo ao Esporte foi essencial. Ela permitiu que a gente profissionalizasse o projeto, estruturasse equipe, metodologia e ampliasse o alcance. Sem isso, nada disso seria possível”, afirma.
Outro ponto central do projeto é a desigualdade de gênero no acesso ao esporte. Apesar dos avanços, a participação feminina ainda é menor em diversas modalidades, o que reforça a necessidade de iniciativas específicas.
“A gente ainda tem menos meninas praticando esporte. Quando você leva o projeto para dentro da escola pública, você cria um ambiente seguro e acessível. Isso faz toda a diferença”, diz.
Transição de carreira como política estruturante
A trajetória de Aline dialoga diretamente com uma das frentes prioritárias do Ministério do Esporte, que é a preparação de atletas para o pós-carreira. O tema ganhou força com a criação do Programa Excelência para a Vida, que busca apoiar esportistas na construção de novos caminhos profissionais ainda durante a vida esportiva.
A proposta parte do reconhecimento de que a carreira no alto rendimento é, por natureza, limitada no tempo e exige planejamento antecipado. Segundo a secretária nacional de Excelência Esportiva, Iziane Marques, o desafio é justamente mudar a lógica predominante no esporte.
“O nosso grande desafio é fazer com que o atleta entenda que a carreira é intensa, mas curta, e que ele precisa se preparar para essa transição. A ideia é que, enquanto ainda está em atividade, ele também estude, se capacite e construa esse caminho para o pós-carreira”, afirma Iziane Marques.
A secretária destaca que essa mudança envolve não apenas a dimensão profissional, mas também aspectos subjetivos. “O atleta não exerce só uma profissão, ele constrói uma identidade. E essa transição exige preparo também psicológico, porque é uma mudança muito profunda”, completa.
Nesse sentido, o programa atua para integrar formação educacional, qualificação profissional e apoio ao planejamento de carreira, permitindo que a transição ocorra de forma mais estruturada e segura.
Asssessoria de Comunicação – Ministério do Esporte